sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Na simplicidade, a beleza

Reter a beleza de cada instante
É uma meta de vida;
Mas para isso é indispensável serenidade.
A manifestação da beleza
Demanda calma e paciência.

É essa exatamente a beleza
Das coisas menores,
Beleza quase sensual,
Que pode ser tocada com as mãos.

Na simplicidade absoluta,
Há grandes alegrias.
Sim, beleza é alegria,
Beleza é contentamento.

A beleza não aguarda momento especial,
Ela se manifesta na simplicidade do cotidiano:
Uma paisagem na volta para casa,
O cheiro de terra molhada após uma chuva de verão,
Uma recordação da infância,
O orvalho da madrugada...

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Poeminha de fim de ano

A tarde caiu,
A brisa soprou,
O dia findou,
A primeira estrela surgiu.

Dezembro se vai,
Mas o cheiro permaneceu
Das últimas flores da primavera que desceu;
E mais um dia cai.

Esperança é sentimento insistente,
Vai, volta,
Não reconhece derrota,
Se esforça para ser permanente.

Céu azul de dia,
De noite todo estrelado;
É verão inteiro, novo, lavado
Que só se inicia.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Da passagem do tempo*

O fato é que os meses passaram,
Anos vieram e o que temos:
Período-tempo
Que atenua a solidão.
                        
A decisão está lá atrás;
Sim, um lá atrás pouco distante,
E isso mantém o frescor do encanto
Para anos vindouros.

Isto é o percurso,
Onde só o que se deve contar
É o próximo passo.
O resto é memória, lembrança,
Impulso necessário para a continuação.

A experiência amadurece,
E a tentativa é juntar palavra e ação.
Entender, também, que a ternura não pode arrefecer,
Sob pena de se perder os ganhos.

Respeito, carinho, compreensão;
Disto resulta um cultivo diário,
Mesmo porque o futuro é só tempo possível,
Mas o hoje é o fortuito-necessário.

De cada dia um aprendizado:
Vivência sempre válida,
Caminho estendido,
Confiança na jornada.

A cada passo o horizonte se insinua
E ao mesmo tempo recua.
Neste caso, a aspiração mais simples e nobre é continuar,
Fazendo de cada aurora um recomeço.

A beleza de estar junto
É o projeto em comum,
Que já se realiza quando
Sentimos os anos passarem
Com a mesma tenra sensação
Dos primeiros dias.

*Para Mari, esposa, companheira, cujo carinho por mim se converte em esperança para mim.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Pequeno ciclo

Do nordeste o vento soprou,
A tarde caiu,
A lua clareou,
A alegria surgiu.

A noite adentrou,
A festa tornou-se mais linda,
A madrugada chegou,
O encanto não finda.

O sol surgiu outra vez
Em radiante clareza,
Outro é o mundo agora.

É singular toda aurora,
Nisto encontro uma certeza,
E desvanece o incomodo talvez.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Quando o distante próximo se faz

Longe um dia foi o futuro,
Mas isso agora ficou para trás.
Pelo futuro passou o passado
E o que ficou é presente-instante.

Estes dias pareciam distante,
Talvez inalcançáveis.
Mas agora eles aqui estão,
Simples, normais,
Como são geralmente os dias.

Posso reconhecer que o tempo passou,
Mas não foi só isso.
As coisas mudaram
E com elas o passo
Tomou outra direção.

Não quero dizer que sou um novo homem,
Talvez seja o mesmo homem,
Aquele mesmo ainda,
Só que aquele ainda mais.

Não sei se escapei,
Mas esta tranquilidade é indescritível.

Batendo a cara contra a parede

A verdade é que, às vezes,
Tenho a amarga ilusão
De que ganho alguma coisa
Ao perder tanto tempo.

É amarga tal ilusão
Porque é uma fuga,
E eu bem sei
Que não há como escapar.

De tanta perda
Nada se ganha,
Ponha isso na cabeça!
Mas chega a manhã de novo...
Ah, preciso escapar outra vez!

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Sobre trovoadas e infância

Choveram trovoadas;
Trovoadas de uma noite inteira.
Isso me faz lembrar
Do meu lugar-origem,
Do início-raiz,
Do cheiro de uma diferente manhã.

E já são muitos os passos
Que me separam daquele início.
Mas basta uma trovoada...
O característico cheiro da terra molhada...
O vento mais a nordeste...
Ah, sim, me transporto
Em pensamento e imaginação.

Ser menino é estar
Mais próximo das coisas,
É poder tocá-las na superfície,
Porque menino desconhece profundidade.

Pra menino ser feliz
Bastam bolas de gude,
Badogue na mão...
E, claro, trovoadas,
Relâmpagos, trovões,
Tanques cheios,
Terra molhada.

É manhã de infância,
Após noite de trovoadas.