domingo, 4 de março de 2018

Certo da incerteza


Manter uma distância segura do medo
Tem importância singular.
O próximo passo sempre oferecerá risco.
É preciso alimentar alguma confiança
Diante de tudo que é incerto.

Todo o ainda não dado
Não guarda qualquer realidade,
Apenas a imaginação constrói seus aspectos
A partir de experiências desconexas.
Assim é que se junta os pedaços,
Daí se constitui todo o possível,
De monstros a cordeiros mansos.

Também é possível que o sol surja de novo
E tenha outra manhã.
Não há qualquer garantia,
Mas se toma isso como uma certeza.
Por que então não confiar no desconhecido?
O que se tem a perder?
Apenas amarras inúteis:
Sofrimento por prestação.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Marca

Em cada ausência
Há uma presença.
A marca fica
Quando algo foi.

O futuro é o conjunto formado
De presente e passado.
Há vida em sua órbita,
Há ser que só existe em função dele.
Não há erro nisso,
Vejo apenas certo atraso.

Aproveitar a presença
É melhor que a saudade da ausência.
Partiremos,
Porém há presente,
Estamos nele situado.
Por enquanto,
Somos com ele indissolúvel.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Na simplicidade, a beleza

Reter a beleza de cada instante
É uma meta de vida;
Mas para isso é indispensável serenidade.
A manifestação da beleza
Demanda calma e paciência.

É essa exatamente a beleza
Das coisas menores,
Beleza quase sensual,
Que pode ser tocada com as mãos.

Na simplicidade absoluta,
Há grandes alegrias.
Sim, beleza é alegria,
Beleza é contentamento.

A beleza não aguarda momento especial,
Ela se manifesta na simplicidade do cotidiano:
Uma paisagem na volta para casa,
O cheiro de terra molhada após uma chuva de verão,
Uma recordação da infância,
O orvalho da madrugada...

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Poeminha de fim de ano

A tarde caiu,
A brisa soprou,
O dia findou,
A primeira estrela surgiu.

Dezembro se vai,
Mas o cheiro permaneceu
Das últimas flores da primavera que desceu;
E mais um dia cai.

Esperança é sentimento insistente,
Vai, volta,
Não reconhece derrota,
Se esforça para ser permanente.

Céu azul de dia,
De noite todo estrelado;
É verão inteiro, novo, lavado
Que só se inicia.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Da passagem do tempo*

O fato é que os meses passaram,
Anos vieram e o que temos:
Período-tempo
Que atenua a solidão.
                        
A decisão está lá atrás;
Sim, um lá atrás pouco distante,
E isso mantém o frescor do encanto
Para anos vindouros.

Isto é o percurso,
Onde só o que se deve contar
É o próximo passo.
O resto é memória, lembrança,
Impulso necessário para a continuação.

A experiência amadurece,
E a tentativa é juntar palavra e ação.
Entender, também, que a ternura não pode arrefecer,
Sob pena de se perder os ganhos.

Respeito, carinho, compreensão;
Disto resulta um cultivo diário,
Mesmo porque o futuro é só tempo possível,
Mas o hoje é o fortuito-necessário.

De cada dia um aprendizado:
Vivência sempre válida,
Caminho estendido,
Confiança na jornada.

A cada passo o horizonte se insinua
E ao mesmo tempo recua.
Neste caso, a aspiração mais simples e nobre é continuar,
Fazendo de cada aurora um recomeço.

A beleza de estar junto
É o projeto em comum,
Que já se realiza quando
Sentimos os anos passarem
Com a mesma tenra sensação
Dos primeiros dias.

*Para Mari, esposa, companheira, cujo carinho por mim se converte em esperança para mim.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Pequeno ciclo

Do nordeste o vento soprou,
A tarde caiu,
A lua clareou,
A alegria surgiu.

A noite adentrou,
A festa tornou-se mais linda,
A madrugada chegou,
O encanto não finda.

O sol surgiu outra vez
Em radiante clareza,
Outro é o mundo agora.

É singular toda aurora,
Nisto encontro uma certeza,
E desvanece o incomodo talvez.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Quando o distante próximo se faz

Longe um dia foi o futuro,
Mas isso agora ficou para trás.
Pelo futuro passou o passado
E o que ficou é presente-instante.

Estes dias pareciam distante,
Talvez inalcançáveis.
Mas agora eles aqui estão,
Simples, normais,
Como são geralmente os dias.

Posso reconhecer que o tempo passou,
Mas não foi só isso.
As coisas mudaram
E com elas o passo
Tomou outra direção.

Não quero dizer que sou um novo homem,
Talvez seja o mesmo homem,
Aquele mesmo ainda,
Só que aquele ainda mais.

Não sei se escapei,
Mas esta tranquilidade é indescritível.

Batendo a cara contra a parede

A verdade é que, às vezes,
Tenho a amarga ilusão
De que ganho alguma coisa
Ao perder tanto tempo.

É amarga tal ilusão
Porque é uma fuga,
E eu bem sei
Que não há como escapar.

De tanta perda
Nada se ganha,
Ponha isso na cabeça!
Mas chega a manhã de novo...
Ah, preciso escapar outra vez!

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Sobre trovoadas e infância

Choveram trovoadas;
Trovoadas de uma noite inteira.
Isso me faz lembrar
Do meu lugar-origem,
Do início-raiz,
Do cheiro de uma diferente manhã.

E já são muitos os passos
Que me separam daquele início.
Mas basta uma trovoada...
O característico cheiro da terra molhada...
O vento mais a nordeste...
Ah, sim, me transporto
Em pensamento e imaginação.

Ser menino é estar
Mais próximo das coisas,
É poder tocá-las na superfície,
Porque menino desconhece profundidade.

Pra menino ser feliz
Bastam bolas de gude,
Badogue na mão...
E, claro, trovoadas,
Relâmpagos, trovões,
Tanques cheios,
Terra molhada.

É manhã de infância,
Após noite de trovoadas.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Nova estação

Outra vez, é primavera.
É manhã de primavera:
Sol tênue,
Brisa suave.

Outra vez, é primavera
De tantas que já foram.
Mas, sempre que ela chega,
É como se fosse primavera
Pela primeira vez.

Outra vez, é primavera.
A primavera traz sempre algo de novo:
Renova esperanças,
Embala um sonho,
Confere alento ao coração.

Outra vez, é primavera:
O campo aparece novo,
A vida surge em pequenos brotos
E se alimenta de gotas de orvalho.
A beleza se renova.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Contorno

Espero como quem pensa.
Tenho no instante
A única realidade.

A saudade vem
Como uma vivência tardia.
O futuro aparece como espectro:
O indeterminado que embala e assusta.

O sonho desarranja
E configura outras realidades...
E falta o alcance da mão:
O inacessível que instiga.

O ocaso pode demorar,
Ou pode ser a realidade mesma
Do próximo instante.

É preciso ter na espera
O intervalo entre ação,
Embora esperar
Já seja agir.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

(Não)-lugar

Venho de longe,
Continuo sendo longe,
Tenho no longe o meu (não) lugar.

Venho de longe
E para longe vou.
Faço da lonjura experiência
Como morada do ser.

Como venho de longe,
Com sou de longe,
Trago sempre em mim
Uma saudade de tempos não vividos.

Venho de longe,
E, como estrangeiro,
Carrego sempre uma tristeza natural
De que não tem amparo,
De quem não tem porto,
De quem não tem cais.

terça-feira, 10 de junho de 2014

É passado o tempo
Nesta idade da vida.
Foi-se o que tudo
Hoje é outrora.
                  
De tantas tarde,
De todas as tardes que foram
Todo o resto é saudade,
Lembrança quase idílica
De uma hora maior.

Mas todo o passado,
Embora bem lembrado,
No fundo, foi só uma hora comum
Como essa mesma que passa
E que saudade será no futuro,
Se futuro houver.

É passado o tempo
Em cada hora.
O presente é um amontoado de passado,
O acúmulo da experiência
E o aprendizado da desesperança.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Do inefável

Ditas todas as palavras,
Só resta o inexprimível.
O poeta então segue
E reconhece que o não dito
Não é apenas possível,
Trata-se também de um fato.

O inexprimível como o poema
Que nunca veio,
Como a impossibilidade do verso.
Mesmo assim tenho no inexprimível
O poema mais completo,
Que só pode ser lido em silêncio,
Porque é ele próprio silêncio.

Para um poeta de verdade,
Embora estranho pareça,
O que mais importa,
No fundo,
Não são as palavras,
Mas as coisas em sua realidade
Mais simples, imediata, prosaica.

O inexprimível é o fato
Do não dito;
De forma que o inexprimível
Pode ser percebido, sentido.
É isso já o bastante...

domingo, 18 de maio de 2014

Entre mudança e permanência

Por enquanto tenho,
Em tempo,
Um começo de retorno.
Um retorno a passos lentos,
Sem pressa qualquer.

Tenho, por esse tempo,
Dias inteiros
E algumas paisagens;
Paisagens essas
Que me são caras:
Como que disso depende a vida.

Depende também a vida,
Assim mesmo,
De alguns retornos,
Como esse agora,
E de algumas partidas,
Como a que deixo para amanhã.

O retorno é sempre retorno
A um conhecido qualquer,
Mas sempre se trata
De um conhecido já mudado,
De forma que o retorno
Pode ser também retorno
A um desconhecido qualquer.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Queria ter do mundo a sua forma mais pura,
E poderia vir assim mesmo sem conteúdo.
Importa ter domínio sobre ela,
E na vida unir arte e projeto.

Marchar como um dândi,
Mas se recolher em modéstia
Quando em hora já avançada,
Quando o medo é uma realidade
Que se desfaz com a luz do dia.

Quero ter da vida um instante de graça,
Um conforto simples, mas duradouro.
Quero estar desabastecido,
Leve de mim, desocupado de mim.

Quero, então, apenas a forma,
Deixo o conteúdo para quem tem melhor estado de espírito.
Basta a forma calma,
A manhã apenas como despertar.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Descoberta

Cheguei onde estou,
E logo um passo mais
Estarei um pouco adiante:
Assim marcho,
E o resultado dessa marcha
É aquilo que sou.

Não posso escapar a essa fatalidade
Exatamente porque sou livre.
Preciso sempre escolher,
Decidir pela melhor direção,
Ou mesmo abdicar de qualquer direção,
Mas isso também constitui uma escolha.

Ainda que não se queira o futuro,
Ainda que se abandone a esperança,
É preciso escolher
Que não se quer o futuro,
Que não se deseja a esperança.

Descobri isso a meio caminho...
E sei que, no fundo,
Não serve com norma geral,
Porque serve como norma apenas para mim,
Na medida em que isso, talvez,
Só faça sentido para mim.

E entendo essa descoberta como um aprendizado,
Não como um sentido.
O sentido é algo muito maior,
E para ser sincero eu prefiro as coisas pequenas
Em sua desimportância.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Porto

Escuta, meu amor.
Preste bastante atenção:
É o silêncio da noite
Que vem chegando.
Aqui, distante de tudo,
Ninguém pode quebrá-lo.

Sente, meu amor,
É o momento da mais plena serenidade.
Percebe como a loucura está distante?
Vê como estou tranquilo por estar a salvo.

Não, meu amor,
Não se desespere,
É só mais uma noite
Simples, regular, comum.

Meu amor,
Este silêncio calmo
Vem de tempos imemoriais,
Sem data, sem instante de criação
Porque eterno.
Entrego-me a ele da mesma forma que me entrego a ti.
Perco-me nele da mesma forma que me perco em ti.
Entrego-me, me perco,
Para assim como em ti,
Completo me restituir.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Para a menina-mulher

Vou entendendo da vida
Pouco a pouco.
Um pouco hoje,
Um pouco amanhã:
E é isso uma esperança,
Tenho de admitir.

É assim que na ausência
De alguma transcendência,
Tenho o tempo como mestre profano,
Como senhor da vida,
Como forma de resgate...

E aqui vai mais uma esperança:
Tivemos nosso tempo,
Temos nosso tempo,
Teremos nosso tempo;
Embora do futuro seja pouco
Ou quase nada
O que se pode dizer.

Parece que o que é preciso
É reter de cada instante
A sua peculiar beleza,
Reconhecê-lo como único,
Como aquilo que não permite repetição.

A vida escorre,
Tem ritmo próprio...
Mas só segue seu rumo
Com resultado de cada escolha.
Não se pode esquecer que ser livre pesa.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Bálsamo

Gosto da noite
Quando ela vem caindo.
Gosto da noite
Porque me chega uma serenidade
De quem não tem preocupações maiores.

Gosto da noite
Porque quando ela adentra
Eu consigo um pouco de paz.

Gosto da noite
Porque ela é simples e natural;
Sei que não vai me cobrar nada
Além de sono e repouso.

Gosto da noite
Como gosto de um refúgio.
Gosto da noite
Porque sinto que ela me protege.
A noite me aparece como uma mãe.

Gosto da noite
Porque ela traz um silêncio estável.
Gosto tanto da noite
Que esta palavra tem agora
Um significado novo para mim:
Noite é sinônimo de calma.

Gosto da noite;
Aliás, tenho de admitir,
Preciso da noite
Como preciso de ar!

A noite tem sido para mim um bálsamo...

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Queria ter, ao menos por alguns instantes,
A tranquilidade dos vagabundos.
A serena embriaguez de dias inteiros,
Que faz não sentir os dias passarem.

Queria ter a falta de vergonha
De pedi sentimentos como esmolas.
De expor todos os meus sentimentos
Como as verdades que são vomitadas na mesa do bar
Durante as melhores doses.

Queria ser como os vagabundos,
Absolutamente sinceros com relação aquilo que são,
Sem segredos, sem mistérios,
Sem metafísica alguma.

Queria ser um vagabundo,
Queria ter o apetite de um vagabundo,
Queria, portanto, ter esperanças menores.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Autoexposição

Quero me expor completamente.
Quero me expor sem máscara.
Quero ser uma verdade!
Quero que me conheça
E saiba exatamente quem sou!

Quero mostrar que eu posso fracassar.
Quero mostrar que eu posso enlouquecer e me recuperar.
Quero, assim, convencer que a minha conduta
Não deve ser norma para alguém!

Quero me expor terrivelmente.
Quero ser claro, translúcido.
Quero que não paire
Dúvida alguma a respeito de mim!

Logo, quero me expor consequentemente,
Afastando, sempre que possível, a ambiguidade.

Quero me expor de corpo e alma.
Quero estar completamente nu,
Pois para me expor verdadeiramente
Eu preciso estar simplesmente desavergonhado!

Isso tudo porque quero estar perto de mim,
O mais próximo possível.
Quero que fique, enfim,
Claro para o outro como sou!
Como sou exatamente,
Isto é, sem máscara!!